.adendo.

Eram 23h50 quando saí pra uma rápida volta no bairro. Tarde, sei, mas precisava comprar umas coisas que faltavam em casa e que, de fato, ninguém precisa saber o que é – não, nada de drogas, nem tenho “parceiros” pra isso. Na descida da rua, crianças corriam e brincavam, enquanto os pais se divertiam no “inferninho” logo à frente.

A essa hora, crianças correndo, brincando. Arrumadinhos, sabe? Dessas crianças que o pai arruma com a desculpa de “vamos sair em família” porque nem tem com quem deixar as crianças pra sentar num boteco depois de uma semana exaustiva. Não julgo, acho digno. E as crianças se acabavam de correr. Brincavam quase de pique. Ah, minha infância…

Enfim, passei pelo inferninho. Tocava Funk. Nada absurdo, né? Também não acho. Mas agora vou completar a frase: tocava Funk, no intervalo do Pagode.

Não é o Rio de Janeiro, mas seja mais que bem vindo a um dos cantos da Lapa, ou ao Alto da Lapa, em São Paulo.

.A (quase) casa, agora, MEU CANTO.

Era uma casa muito engraçada, TINHA teto, mas não tinha nada. Charmosa, sim. Um sobrado na Lapa. Digo, Alto da Lapa. Em São Paulo, não no Rio de Janeiro. Um bairro acolhedor, familiar e tranquilo, até isso posso dizer.

Desde que conheci e passei a morar no local é difícil pensar em sair, se um dia precisar. Minha rua não tem nada de interessante, é até bem calma, principalmente nos finais de semana. Nos dias úteis uma certa muvuca se forma, aumenta o número de carros, principalmente por que na esquina há um colégio / faculdade / academia, aí já viu, né? Mas nada que incomode ou aborreça. A não ser um moleque que inventa de andar de mobilete ou qualquer coisa que faz um barulho ensurdecedor e irritante após as 23h, por quase todos os dias.

Mas, é o típico bairro de cidade do interior, antigo, pessoas de idade, muita gente já acostumada com os demais moradores e eu ali, ‘caída de paraquedas’, residente há apenas dois anos.

Não se ouve muitas conversas, apenas cumprimentos pela rua – pequena, diga-se de passagem -, mas a sensação é de um cuidado extremo, principalmente em feriados, onde os idosos permanecem e algumas casas ficam vazias. Ao menos, sempre que viajei, na volta alguns vem me dizer o que rolou por ali, que olharam a minha casa e tal. De uma certa forma, dá uma certa segurança. Nunca pensei encontrar um canto assim em São Paulo.

Aqui, assunto recorrente nem pode ser o sexo. Digo isso só por saber a idade da maioria dos moradores, que não é menos de 60. Não que as pessoas de 60 não façam sexo, mas já constatei que tem muita gente viúva (o) ou, sei lá, família mega resguardada. Enfim, sexo aqui é assunto pra quem o pratica.

Moro sozinha, como todos sabem. A princípio, como citei, uma casa que não tinha nada. Por vezes, me dava uma tristeza, angústia, dessas que acontece quando você volta do trabalho e enxerga os poucos móveis deixados pela proprietária só porque foi você quem alugou o apartamento. Atitude bacana, mas ainda assim, não tinha a minha cara, não dava a sensação do abraço e aconchego que eu precisava. Em certos dias, mal me sentia em casa.

Cozinhar nem dava tesão. Só pra mim, que como pouco, fazia comida que durava uma semana quase, sem querer. Mas quando alguém aparecia, cozinhava com prazer toda e qualquer gororoba.

Porém, uma semana antes do carnaval, minha mãe chegou. A presença dela aqui me fez um bem enorme. O objetivo dela, além de passar um tempo comigo, visto que agora nos vemos bem pouco, só quando vou pra ilha, era decorar minha casa, que ela já conhecia e sabia bem que não tinha nada a ver comigo. Bastou um mês pra ela deixar o Meu Canto com a minha cara.

Cozinhar voltou a ser diferente, mágico, mesmo que só pra mim. Falar sobre adaptação na cidade, todos sabem que me adaptei super bem em São Paulo. Eu acho que nasci mesmo no lugar errado, apesar de amar ainda mais a ilha e sentir mais que saudade de todos. Mas adaptada ou não, agora sim, posso dizer que mais que nunca, estou em casa, finalmente.

.(des)viagem.

Eram 11h50, quase período vespertino já, quando recebi o trackback da bagaça. O dia não é seis de março, mas nove. De qualquer forma, nem me lembro o que fiz no sábado pela manhã, por isso vou adaptar o que puder pra esta terça-feira ensolarada.

Tive uma boa noite de sono, dessas que a gente apaga direto, mesmo com o aperto no peito de dar mais um ‘tchau’ para a mãe que estaria de volta à ilha até 12h10. A vantagem é que ela não foi sacolejando num ônibus da aviação Itapemirim: primeiro por que esta não seria a opção, visto que me lembro bem das nossas viagens de família quando precisávamos ir de ônibus para a terra dela – e do Rei -, Cachoeiro, e de todos os dramins consumidos por nós. Ônibus “parador”, no way! De qualquer forma, só eu encaro estradas, como de São Paulo a Vitória. Ela foi voando mesmo.

Eu não sei o que pode ter acontecido durante o check-in, pois, infelizmente, não pude acompanhá-la até o aeroporto, precisei me despedir ainda em casa, antes de ela entrar no Taxi, o que me fez chorar ainda mais. Mas isso não vem ao caso. Vou inventar qualquer história, desvirtuar o assunto ou falar qualquer bobagem, já que o tema em questão é  “viagem”. Assim, aproveito e coralizo esse ambiente.

Da última vez que fui pro Rio, foi pra morar também. Das melhores partes da viagem: o Flecha. Ah, o que seria Campos dos Goytacazes sem essa rede, não é verdade? É ali que você não pensa duas vezes e desce do ônibus direto para o “Ela” e, em seguida, corre para comprar um steak ou espetinho de frango. É, é apenas o que como por ali.

Até tal parada, podem apostar, passei a viagem inteira sem fechar os olhos. Me contento em incomodar os demais passageiros com a luz sobre a minha cabeça acesa. Sim, pois pra enjoar tem todo um processo de leitura que antecede o fato, diz aí.

Depois disso, qualquer teco de dramim é responsável pelo domínio do sono sem fim e da cara amarrotada com a qual se chega ao Rio de Janeiro. Aliás, sendo sincera, o dramim é responsável pela ausência das dores musculares e da má circulação sanguinea gerada pelos assentos ingratos das companhias rodoviárias. E nem importa se você está à bordo de um mega blaster leito, sua perna sempre estará encolhida na poltrona ou pra baixo, naquele descanso de pernas que de nada adianta, ao menos na minha opinião.

Mas, dor é uma questão de costume ou sono mesmo. O difícil é chegar nesse segundo ponto quando o primeiro incomoda. Independente disso, o Rio de Janeiro não parece ter um despertador por fazer com que você acorde sempre em cima da Rio – Niterói. O que acontece é que em certo ponto da ponte um feixe de luz filho da puta sempre acha uma brecha na cortina da lotação. É batata! Daí, já sabe, é acordar e procurar o ‘Cara’ de braços abertos.

E sempre que acordo em tal ponto e enxergo O Redentor, não dá outra: lembro da primeira vez que fui pro Rio, não tão melecuda, crescidinha o suficiente pra resgatar uma coisa ou outra na memória. Na época, ficamos na casa de uma tia, na Tijuca. E, claro, como toda e qualquer primeira vez no Rio de Janeiro, lá fomos nós pro programa Pão de Açucar – Cristo.

Sol da porra na moleira e a família sorridente. Todos ali, juntos, subindo, subindo e subindo. Subindo para sempre, sem chegar no céu. Eu, exatamente como a criança do ônibus da viagem do gigante, um perfeito burro de Shrek, sem os barulhinhos bucais, mas com perguntas do tipo “já chegou?”, “estamos chegando?”, “já é aqui?”, em frações de segundos – o que me faz lembrar de todo trauma da matemática.

A confissão: Papai do Céu que me desculpe, mas eu estava cagando pro passeio e pra vista que teria lá de cima. Eu nunca tinha tomado sorvetes e picolés da Nestlè e passei a minha infância ouvindo o Gugu, a Xuxa e tudo quanto é apresentador de TV falando deles. Na ilha não chegava essas coisas. Demorou anos pra que isso acontecesse por lá (e hoje a Garoto é da Nestlè, quem diria).

Enfim, criança, sol, caminhada, subida e, no pé do morro, todos os carrinhos de sorvetes e picolés Nestlè ficando pra trás. Mundo injusto e cruel. Eu ali, de mãos dadas com a minha mãe pensando no picolé de leite condensado – que hoje, admito, NA BOA, o da Jelso nem fica pra trás (e só vai me entender quem for da ilha). Inclusive, posso julgar este ainda melhor pelo simples motivo de poder tirar o palito e tranformar a embalagem em chup-chup, dando um nozinho na ponta do plástico. Rá!

Ah, minha infância… praia, picolé escorrendo pela barriga, peitinho de fora, apenas com a calcinha do biquini. Como é bom ser criança, minha gente! (interlúdio)

Na ocasião também estive no Rio – Sul. E pra uma guria da ilha, “que shopping enorme, não?”. Naquela época o que maior tinha em Vitória era o Boulevard e o Centro da Praia, vejam só. Eu ainda achava shopping um lugar bacaninha. Hoje, nem pelo fato de não ter grana, mas só entro pra comprar o necessário, tipo presentes pra alguém e olhe lá. Aquela procissão andando calmamente enquanto olha vitrine me irrita, prefiro não encarar.

Já Niterói, conheci mesmo quando morei longos 4 meses no Rio. É, longos. Apenas 4 meses. Os mais longos da minha vida. Nunca diga nunca, mas não quero repetir a experiência em solo carioca. De qualquer forma, preciso concordar com eles e com o gigante: a vista mais linda que se tem do Rio só pode ser vista de Niterói. Nem novela do Maneco ajuda.

Das ligações que fiz nesse período, acho que a que mais marcou foi:

– Mãe…

– Oi, filha.

– Não quero mais isso aqui.

– Tá tudo bem?

– Sim, apenas não quero mais o Rio.

É, por lá, diferente dos outros lugares em que morei, não me adaptei. O Rio pra mim é sinônimo de temporada. Rápida temporada, diga-se de passagem. É isso: passagem. Só.

Quatro meses depois, o percurso inverso foi feito. Voltei ao Flecha, comi  espetinho de frango, passei por Cachoeiro, me lembrei de todas as viagens necessárias pela viação Itapemirim, incomodei passageiros. Porém, agora, não mais com a luz para leitura sobre a minha cabeça, mas com um sorriso enorme no rosto de quem estava voltando pra casa. Que estranho: feliz por estar voltando pra casa. Foi o que o Rio me causou.

Minha mãe e irmã já estavam à minha espera na rodoviária, não esperei um segundo sequer. Cheguei no prédio, de volta à casa da minha mãe, cumprimentei os porteiros, as faxineiras. Todos com aquele sorriso sincero por me ver novamente.

Desci no décimo quarto andar – sete a mais que o gigante, vejam só – e não precisei tocar a campainha: estava em casa. Na casa que poderei sempre chamar de minha. Sem café, sem mais, apenas feliz por estar novamente ali, no conforto do lar, sob o carinho das duas mulheres eternas na minha vida.

Ao final do dia, deitei naquela cama que sempre será minha, naquele canto que sempre poderei chamar de meu, mesmo hoje sendo mais da minha irmã. É ali que me sinto bem, que o sono embala, que a respiração fica suave, tranquila, que eu me sinto acolhida. Que não consigo pensar em mais nada, apenas me deixo envolver pela atmosfera do conforto, da proteção e da saudade. Ali, as coisas e idéias na cabeça podem ficar pra depois.

.A arte de cutucar.

O Eu gigante está quieto. Eu maior ainda, inquieto.

Terá o Eu gigante novamente adormecido ou simplesmente aproveita o novo momento, com calma, detalhe por detalhe, minuto a minuto, cada segundo de renovação, vida nova e decisões?

Eu maior ainda acompanha, num balanço de corpo suave guiado pela respiração. Por dentro, ofegante, frenético e incontrolável desejo de novas histórias, não só para o plágio não plagiado numa versão sob tal ponto de vista, mas pelo simples fato de querer coralizar alguma coisa.

.Plágio meu.

Nem sei por que resolvi encarar o jornalismo. Mas me lembro que quando pequena eu escrevia letras muito bregas num caderninho de matemática, aqueles cadriculadinhos, sabe?

Tá, depois passei a ter diário. Inclusive, um tinha a capa da Branca de Neve e Os Sete Anões. Folhinhas verdes, corações desenhados, o nome do moleque no meio. Tinta Bic básica.

Por demais brega. Há pouco tempo ainda o tinha na casa da minha mãe. Porém, da última vez que o li, morri de vergonha: eu era, no mínimo, retardada. Mas o amor infanto-juvenil é isso aí, não é verdade? Então digo que o vivi.

Sempre escrevi bem, mesmo sem saber resumir um parágrafo sequer. Falo demais. Quero detalhar tudo. Nunca consigo achar aquilo menos importante que isso. Então, destaco tudo novamente num texto, com outras palavras. Por vezes, editado e não resumido.

Hoje, digo, neste momento, escrever pra mim, de variadas formas, é plagiar o existente, mas com a minha versão.

Mas, me expresso melhor em sons, do que em linhas. É, eu falo pra caralho e minha vida tem uma vasta trilha sonora.

Não sento pra organizar ideias, não falo quieta no telefone. Estou sempre andando de um lado pro outro pra conseguir me expressar. Com isso vem os gestos. Falo com as mãos também.

Organizo ideias no boteco e torço pra alguém anotá-las, pois são por vezes mirabolantes, modéstia à parte. Até porque, eu sempre deixo pra anotá-las em casa, no dia seguinte. Daí, ao acordar, elas já estão capengas na minha mente, nada tão fabulosa quanto antes.

Não compararia minha forma de (des)organizar ideias, como quem analisa uma equação matemática antes de resolvê-la. Depois que levei bomba nessa matéria no primeiro ano colegial, travei. Nunca mais acertei o resultado de uma simples soma.

Me lembro que a professora me pediu pra ajudar minha melhor amiga, que precisava tirar 10 pra passar de ano. Passamos o final de semana estudando juntas. Eu a ensinei trigonometria. Ensinei tão bem que ela tirou 10 na prova. Eu, zerei. A professora achou que tínhamos trocado de prova. Eu desenvolvia certo, mas o resultado estava errado. Em todas as questões. Enfim, traumatizei e aquela guria melecuda que era ótima em português e matemática ficou só com o português.

Aí veio o jornalismo. Mas era pra ter sido arqueologia. É, eu bem queria ter um pincel em mãos, sair em busca de ossos para limpá-los e fazer cara de “caralho, olha só o que achei!”. Tá, exagerei. Mas queria mesmo ser arqueóloga. Porém, meus pais não tinham (e ainda não tem) grana pra me mandar pro Egito um dia.

Um dia. Esse dia que passou, visto que hoje tenho 30 anos e quem tem que ‘se mandar’ sou eu mesmo.

Daí, resolvi resgatar o que fiz, o jornalismo. Mas do nível de quem é filho da puta e não pensa, apenas usa o plágio como artifício. Eu não vou plagiar, vou escrever coisas aleatórias, pessoas e coralísticas em cima dos posts da mesma. Por puro prazer de perturbar alguém.

E como quem me conhece sabe, criar blog é minha vida. Crio vários, um por dia quase, apenas não os mantenho. Mas esse é especial e terá update quase simultâneo se conseguir.

Farei dele uma vida. A minha vida, baseada na dela.

.Eu, maior que o gigante que vive.

Uma idéia.

Roubada.

Editada.

Plagiada.

Ativa.

Aditivada.

Mas um pouco mais de tudo.

Maior que o gigante que vive em mim.