.(des)viagem.

Eram 11h50, quase período vespertino já, quando recebi o trackback da bagaça. O dia não é seis de março, mas nove. De qualquer forma, nem me lembro o que fiz no sábado pela manhã, por isso vou adaptar o que puder pra esta terça-feira ensolarada.

Tive uma boa noite de sono, dessas que a gente apaga direto, mesmo com o aperto no peito de dar mais um ‘tchau’ para a mãe que estaria de volta à ilha até 12h10. A vantagem é que ela não foi sacolejando num ônibus da aviação Itapemirim: primeiro por que esta não seria a opção, visto que me lembro bem das nossas viagens de família quando precisávamos ir de ônibus para a terra dela – e do Rei -, Cachoeiro, e de todos os dramins consumidos por nós. Ônibus “parador”, no way! De qualquer forma, só eu encaro estradas, como de São Paulo a Vitória. Ela foi voando mesmo.

Eu não sei o que pode ter acontecido durante o check-in, pois, infelizmente, não pude acompanhá-la até o aeroporto, precisei me despedir ainda em casa, antes de ela entrar no Taxi, o que me fez chorar ainda mais. Mas isso não vem ao caso. Vou inventar qualquer história, desvirtuar o assunto ou falar qualquer bobagem, já que o tema em questão é  “viagem”. Assim, aproveito e coralizo esse ambiente.

Da última vez que fui pro Rio, foi pra morar também. Das melhores partes da viagem: o Flecha. Ah, o que seria Campos dos Goytacazes sem essa rede, não é verdade? É ali que você não pensa duas vezes e desce do ônibus direto para o “Ela” e, em seguida, corre para comprar um steak ou espetinho de frango. É, é apenas o que como por ali.

Até tal parada, podem apostar, passei a viagem inteira sem fechar os olhos. Me contento em incomodar os demais passageiros com a luz sobre a minha cabeça acesa. Sim, pois pra enjoar tem todo um processo de leitura que antecede o fato, diz aí.

Depois disso, qualquer teco de dramim é responsável pelo domínio do sono sem fim e da cara amarrotada com a qual se chega ao Rio de Janeiro. Aliás, sendo sincera, o dramim é responsável pela ausência das dores musculares e da má circulação sanguinea gerada pelos assentos ingratos das companhias rodoviárias. E nem importa se você está à bordo de um mega blaster leito, sua perna sempre estará encolhida na poltrona ou pra baixo, naquele descanso de pernas que de nada adianta, ao menos na minha opinião.

Mas, dor é uma questão de costume ou sono mesmo. O difícil é chegar nesse segundo ponto quando o primeiro incomoda. Independente disso, o Rio de Janeiro não parece ter um despertador por fazer com que você acorde sempre em cima da Rio – Niterói. O que acontece é que em certo ponto da ponte um feixe de luz filho da puta sempre acha uma brecha na cortina da lotação. É batata! Daí, já sabe, é acordar e procurar o ‘Cara’ de braços abertos.

E sempre que acordo em tal ponto e enxergo O Redentor, não dá outra: lembro da primeira vez que fui pro Rio, não tão melecuda, crescidinha o suficiente pra resgatar uma coisa ou outra na memória. Na época, ficamos na casa de uma tia, na Tijuca. E, claro, como toda e qualquer primeira vez no Rio de Janeiro, lá fomos nós pro programa Pão de Açucar – Cristo.

Sol da porra na moleira e a família sorridente. Todos ali, juntos, subindo, subindo e subindo. Subindo para sempre, sem chegar no céu. Eu, exatamente como a criança do ônibus da viagem do gigante, um perfeito burro de Shrek, sem os barulhinhos bucais, mas com perguntas do tipo “já chegou?”, “estamos chegando?”, “já é aqui?”, em frações de segundos – o que me faz lembrar de todo trauma da matemática.

A confissão: Papai do Céu que me desculpe, mas eu estava cagando pro passeio e pra vista que teria lá de cima. Eu nunca tinha tomado sorvetes e picolés da Nestlè e passei a minha infância ouvindo o Gugu, a Xuxa e tudo quanto é apresentador de TV falando deles. Na ilha não chegava essas coisas. Demorou anos pra que isso acontecesse por lá (e hoje a Garoto é da Nestlè, quem diria).

Enfim, criança, sol, caminhada, subida e, no pé do morro, todos os carrinhos de sorvetes e picolés Nestlè ficando pra trás. Mundo injusto e cruel. Eu ali, de mãos dadas com a minha mãe pensando no picolé de leite condensado – que hoje, admito, NA BOA, o da Jelso nem fica pra trás (e só vai me entender quem for da ilha). Inclusive, posso julgar este ainda melhor pelo simples motivo de poder tirar o palito e tranformar a embalagem em chup-chup, dando um nozinho na ponta do plástico. Rá!

Ah, minha infância… praia, picolé escorrendo pela barriga, peitinho de fora, apenas com a calcinha do biquini. Como é bom ser criança, minha gente! (interlúdio)

Na ocasião também estive no Rio – Sul. E pra uma guria da ilha, “que shopping enorme, não?”. Naquela época o que maior tinha em Vitória era o Boulevard e o Centro da Praia, vejam só. Eu ainda achava shopping um lugar bacaninha. Hoje, nem pelo fato de não ter grana, mas só entro pra comprar o necessário, tipo presentes pra alguém e olhe lá. Aquela procissão andando calmamente enquanto olha vitrine me irrita, prefiro não encarar.

Já Niterói, conheci mesmo quando morei longos 4 meses no Rio. É, longos. Apenas 4 meses. Os mais longos da minha vida. Nunca diga nunca, mas não quero repetir a experiência em solo carioca. De qualquer forma, preciso concordar com eles e com o gigante: a vista mais linda que se tem do Rio só pode ser vista de Niterói. Nem novela do Maneco ajuda.

Das ligações que fiz nesse período, acho que a que mais marcou foi:

– Mãe…

– Oi, filha.

– Não quero mais isso aqui.

– Tá tudo bem?

– Sim, apenas não quero mais o Rio.

É, por lá, diferente dos outros lugares em que morei, não me adaptei. O Rio pra mim é sinônimo de temporada. Rápida temporada, diga-se de passagem. É isso: passagem. Só.

Quatro meses depois, o percurso inverso foi feito. Voltei ao Flecha, comi  espetinho de frango, passei por Cachoeiro, me lembrei de todas as viagens necessárias pela viação Itapemirim, incomodei passageiros. Porém, agora, não mais com a luz para leitura sobre a minha cabeça, mas com um sorriso enorme no rosto de quem estava voltando pra casa. Que estranho: feliz por estar voltando pra casa. Foi o que o Rio me causou.

Minha mãe e irmã já estavam à minha espera na rodoviária, não esperei um segundo sequer. Cheguei no prédio, de volta à casa da minha mãe, cumprimentei os porteiros, as faxineiras. Todos com aquele sorriso sincero por me ver novamente.

Desci no décimo quarto andar – sete a mais que o gigante, vejam só – e não precisei tocar a campainha: estava em casa. Na casa que poderei sempre chamar de minha. Sem café, sem mais, apenas feliz por estar novamente ali, no conforto do lar, sob o carinho das duas mulheres eternas na minha vida.

Ao final do dia, deitei naquela cama que sempre será minha, naquele canto que sempre poderei chamar de meu, mesmo hoje sendo mais da minha irmã. É ali que me sinto bem, que o sono embala, que a respiração fica suave, tranquila, que eu me sinto acolhida. Que não consigo pensar em mais nada, apenas me deixo envolver pela atmosfera do conforto, da proteção e da saudade. Ali, as coisas e idéias na cabeça podem ficar pra depois.

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3 Respostas para “.(des)viagem.

  1. Eu sempre acho muito foda o que você escreve…

  2. Ah, Pliniolino, obrigada. É tudo culpa do gigante coralino.

  3. minha linda.. sua escrita é como whisky….

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